Entre o crescimento económico e o risco do sobre-endividamento
O endividamento é uma ferramenta essencial para dinamizar economias, financiar empresas e permitir o acesso das famílias a bens e serviços. Mas, quando mal gerido, transforma-se num fardo insustentável.
Em Angola, onde a estrutura económica depende fortemente do crédito, falar de endividamento sustentável é falar de equilíbrio: usar a dívida como alavanca, sem comprometer a capacidade futura de pagamento.
CONTEXTO MACROECONÓMICO
Nos últimos anos, Angola registou avanços na estabilização macroeconómica, mas ainda enfrenta taxas de inflação elevadas e forte exposição às flutuações do petróleo.
O recurso ao crédito externo e interno é inevitável, mas a questão central está em como garantir que esse endividamento seja sustentável.
ENDIVIDAMENTO DAS FAMÍLIAS
As famílias angolanas recorrem cada vez mais ao crédito ao consumo. Estudos do BNA indicam que o crédito ao consumo representa mais de 25% do total da carteira de crédito.
O risco é claro: sem literacia financeira adequada, muitos lares enfrentam dificuldades em gerir prazos e juros, entrando em ciclos de sobre-endividamento.
Um inquérito do INE em 2024 revelou que:
- 41% das famílias urbanas têm dívidas activas
- 30% dessas famílias atrasam pagamentos em algum momento do ano
Este dado revela a urgência de mecanismos de educação financeira e regulação apertada no crédito ao consumo.
ENDIVIDAMENTO DAS EMPRESAS
Para as empresas, o crédito é essencial para financiar investimentos e expandir operações. Mas a sustentabilidade da dívida não depende apenas do montante, mas da capacidade real de gerar resultados.
É aqui que entram indicadores financeiros usados mundialmente — e cada vez mais em Angola — como o rácio dívida/EBITDA.
EBITDA: O QUE SIGNIFICA?
EBITDA é a sigla em inglês para Earnings Before Interest, Taxes, Depreciation and Amortization, ou seja, Resultados antes de Juros, Impostos, Depreciações e Amortizações.
É um indicador que mede a capacidade real de uma empresa gerar lucros apenas com a sua actividade operacional, sem considerar encargos financeiros ou efeitos contabilísticos.
Em Angola, este indicador é cada vez mais usado por bancos e investidores para avaliar a sustentabilidade da dívida empresarial.
Exemplo:
- Empresa com EBITDA de 500 milhões Kz e encargos anuais de dívida de 200 milhões Kz = capacidade de cobertura confortável
- Se o EBITDA fosse de apenas 150 milhões Kz = risco de incumprimento elevado
O PAPEL DO ESTADO
O Estado angolano também tem um papel central na equação. O endividamento público, quando direccionado para infra-estruturas produtivas e serviços essenciais, pode gerar crescimento económico futuro.
Mas quando destinado apenas a cobrir défices correntes, compromete gerações futuras e a estabilidade macroeconómica.
Segundo dados do Ministério das Finanças:
- A dívida pública rondava 84% do PIB em 2024
- A sustentabilidade da dívida continua dependente da diversificação económica
- É crucial reduzir a dependência das exportações petrolíferas
DESTAQUES EM NÚMEROS
CRÉDITO AO CONSUMO
+25,6% da carteira de crédito dos bancos é dirigida ao consumo
EMPRESAS
O rácio dívida/EBITDA é usado para medir a sustentabilidade do endividamento
ESTADO
84% da dívida pública foi do PIB em 2024
EDUCAÇÃO FINANCEIRA
30% das famílias endividadas atrasam pagamentos anuais
O endividamento sustentável exige disciplina, transparência e visão estratégica. Tanto famílias como empresas e o próprio Estado devem olhar para a dívida como um instrumento, não como um fim em si.
Quando bem gerido, o crédito pode impulsionar o crescimento; quando descontrolado, é um factor de vulnerabilidade.
A educação financeira, a regulação e a adopção de indicadores como o EBITDA são ferramentas-chave para garantir que Angola trilhe o caminho do crescimento equilibrado.
Fontes Consultadas:
Banco Nacional de Angola – Relatório de Estabilidade Financeira (2024) | Instituto Nacional de Estatística – Inquérito às Despesas das Famílias (2024) | Ministério das Finanças – Relatório de Execução Orçamental (2024) | FMI – Perspectivas Económicas Regionais para África Subsariana (2024) | Grupo BAI – REstudos de Literacia Financeira e Crédito (2024)
O artigo é interessante porque não trata a dívida como muitos estão habituados: um vilão. Esse outro lado da moeda é importante.
Sobre o ponto das famílias, concordo que a educação financeira é crucial. Mas não podemos ignorar um verdadeiro “tendão de Aquiles” em Angola: a inflação.
Num contexto de perda constante de poder de compra, mesmo famílias organizadas acabam pressionadas.
Diria ainda que a política monetária e as taxas de juro elevadas no crédito ao consumo também não ficam esquecidos. Não se trata apenas de saber gerir, mas de conseguir respirar num ambiente onde o custo do dinheiro é alto.