O Presidente da Associação Angolana de Bancos (ABANC) conduziu a apresentação do enquadramento geral do ESG (Ambiental, Social e de Governação) e destacou o futuro da banca em Angola, no âmbito da 1.ª Conferência Prisma Económico – Finanças Sustentáveis, realizada em março do ano em curso, na Academia BAI, em março de 2026. Mário Nascimento iniciou a sua intervenção por expressar agradecimento à Academia BAI pelo convite e felicitou o Banco BAI, S.A., pela emissão do seu relatório de sustentabilidade.
CONCEITO E RELEVÂNCIA DO ESG
O especialista esclareceu que o ESG não se confunde com filantropia ou marketing verde, constituindo uma evolução na gestão do risco financeiro e um sistema estruturado de gestão de riscos e criação de valor económico a longo prazo. Explicou que, durante décadas, os bancos analisaram apenas riscos tradicionais crédito, mercado, taxa de juro, operacional e liquidez — e que hoje os riscos ambientais, sociais e de governação exercem impacto financeiro directo. Identificou riscos específicos, como risco climático, reputacional, de transição energética, social e de governação, exemplificando que um desastre ambiental pode destruir activos, problemas laborais interrompem cadeias produtivas e falhas de governação destroem valor accionista. O profissional sublinhou que o ESG passou a integrar a estabilidade financeira das instituições e, consequentemente, a estabilidade sistémica, ao incorporar sistemas de risco na gestão empresarial e financeira e ampliar o perímetro prudencial.
ORIGEM ACADÉMICA E INSTITUCIONAL
Mário Nascimento explicou que o ESG tem origem académica e institucional, ligada ao desenvolvimento do capitalismo. Mencionou como marco inicial o relatório das Nações Unidas “Who Cares Wins” de 2004, elaborado por grandes instituições financeiras, bancos, seguradoras e gestores de activos, que concluiu que empresas que gerem riscos ambientais, sociais e de governação tendem a ter melhor desempenho financeiro a longo prazo. Referiu também que, em 2006, surgiram os Princípios do Investimento Responsável, apoiados pelas Nações Unidas, transformando a sustentabilidade num factor de valor financeiro e não apenas num imperativo ético. Após a crise financeira de 2008, o sistema financeiro reconheceu a importância de integrar os factores ESG na análise de risco, passando o ESG a constituir uma questão de materialidade financeira.
RAZÕES PARA RELEVÂNCIA DO ESG
O profissional da matéria apresentou cinco razões que justificam a relevância do ESG:
- Mudanças climáticas e eventos climáticos extremos com impacto financeiro;
- Escândalos corporativos que evidenciam falhas de governação;
- Crise financeira de 2008 que revelou riscos sistémicos;
- Protecção de investidores institucionais de longo prazo;
- Reconhecimento de que os riscos à sustentabilidade são riscos financeiros.
LINHA TEMPORAL DO ESG
O especialista descreveu a linha temporal do ESG em quatro fases:
- 1. Fase fundacional (2004-2006) – Relatório da ONU e Princípios do Investimento Responsável;
- 2. Fase de consolidação – Acordos de Paris e Objectivos de Desenvolvimento Sustentável;
- 3. Fase de regulamentação financeira – Taxonomia verde e planos de finanças sustentáveis da União Europeia;
- 4. Fase actual (2020-presente) – Testes climáticos e instrumentos de reporte do Banco Central.
CRESCIMENTO E IMPACTO FINANCEIRO
O especialista destacou que, desde 2005, o ESG evoluiu de um investimento de cerca de cinco trilhões de dólares para mais de trinta trilhões em 2022, estimando-se cinquenta trilhões em 2025, sustentado por fundos de pensões, gestores de activos e investidores institucionais. Referiu que os bancos desempenham papel central no ESG, pois decidem a alocação de capital, influenciam a transição energética, o desenvolvimento social e a governação corporativa.
Em Angola, o Banco Nacional de Angola assume função essencial como autoridade prudencial, emitindo cartas circulares que orientam os bancos sobre integração de riscos ESG, gestão de risco e reporte. Explicou ainda que a regulamentação é progressiva e proporcional, ajustada à realidade do país, e alertou para o risco de greenwashing, enfatizando que o ESG deve ser avaliado no contexto da jurisdição, não apenas das instituições.
OS TRÊS PILARES DO ESG
Mário Nascimento destacou os três pilares do ESG:
- Ambiental (E): risco climático, energias renováveis, financiamento verde, gestão da pegada de carbono;
- Social (S): inclusão financeira, equidade de género, direitos humanos, apoio a micro, pequenas e médias empresas, desenvolvimento comunitário;
- Governação (G): supervisão do Conselho de Administração, compliance, gestão de conflitos de interesse, Código de Conduta, controlo interno e transparência.
Sublinhou que os três pilares são interdependentes e que uma má governação eleva os riscos, mesmo que a empresa seja ambientalmente responsável. Destacou também a necessidade de métricas claras e indicadores de sustentabilidade, incluindo KPIs ambientais, metas ODS prioritárias, monitorização da emissão de carbono, diversidade na liderança e qualidade da governação, com responsabilidade atribuída aos órgãos da administração.
DESAFIOS E OPORTUNIDADES DO ESG
O profissional identificou desafios como a criação de dados ESG estruturados, capacitação técnica e integração do ESG no pricing do crédito. Destacou oportunidades, como acesso a financiamento multilateral, diferenciação competitiva, atracção de investimento ESG, preparação para equivalência regulatória e reforço reputacional do sistema financeiro angolano.
No entanto, concluiu que o ESG deixou de ser opcional, assumindo carácter regulatório e estratégico. Fez saber ainda que as instituições que anteciparem e implementarem o ESG terão vantagens comparativas, incluindo melhor acesso ao capital, menor risco reputacional, maior resiliência, captação de capital internacional, desenvolvimento de produtos verdes e financiamento da transição energética. Afirmou ainda que a sustentabilidade não é um custo, mas gestão moderna de riscos, acesso ao capital e criação de valor económico.
RECORDAÇÕES E FUTURO DO ESG EM ANGOLA
O especialista recordou que, há dois anos, participou num evento sobre sustentabilidade, organizado pela Academia BAI, em que se discutia se Angola possuía sustentabilidade no sector bancário. Na altura, afirmou que não existia sustentabilidade, dado que muitos bancos apresentavam políticas de responsabilidade social como se fossem critérios de sustentabilidade. Acrescentou ainda que o banco e o sistema financeiro deram passos importantes, assinalando que a sustentabilidade se tornaria um tema central nas instituições nos próximos anos, com importância equivalente a matérias como os princípios prudenciais e o compliance.
“E nós vimos isso expresso nas cartas circulares que o Banco Nacional de Angola fez emitir, a primeira sobre os princípios que foram emitidos em maio de 2025 e as duas últimas em dezembro sobre os princípios dois e três”, concluiu.